Sunday, March 02, 2008

O Índice da Maldade

Entrando na sala, vejo minha irmãzinha assistindo um programa no Discovery Channel chamado "O Índice da Maldade". A premissa do programa parece ser que um psicólogo analiza os casos de vários serial killers, e pronúncia o nível de maldade de cada um dentro de uma escala pré-determinada. Por exemplo, assassinos são X pontos piores do que ladrões, e assassinos-estupradores são Y pontos piores do que meros assassinos, e assim por diante, até que toda uma galeria de assassinos em série esteja julgada e condenada de acordo com o patamar de maldade em que se encontram. Não gostei muito da idéia. E o motivo é o seguinte:

Uma das premissas básicas do cristianismo é que todo ser humano é desesperadamente corrupto e mau quando comparado ao Deus santíssimo, e ainda genuinamente mau mesmo apenas em comparação com outros seres humanos. Como escreveu Paulo, citando o salmista, "Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda, não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com a língua tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos."

O motivo pelo qual a mensagem do Cristianismo é (ou, aliás, deveria ser) uma de salvação pela graça divina por intermédio da fé, e não por mérito humano, é justamente por essa incapacidade de santidade inerente ao homem. Ao homem que diz que Deus o aceitará porque ele foi bondoso durante sua vida, o cristão pergunta: que bondade você possívelmente poderia possuir que satisfaria um Deus eternamente justo? O cristão é ordenado a depender da graça divina porque nada, absolutamente nada que ele pode fazer poderia começar a apagar as manchas em sua alma, a desonra feita a Deus, o veneno com o qual ele já infectou o mundo.

E é também por esse motivo que o cristão é proibido de julgar os outros. Como C.S. Lewis apontou, um homem pode estar numa posição onde sua ira causa a morte de milhares, outro numa posição onde sua ira faz apenas com que as pessoas riam dele: mas o mal que os devora por dentro pode ser exatamente o mesmo. Por isso a ordem é sempre a mesma: não julgue. Não julgue os outros, porque com a mesma medida com que julga, você também será julgado. Não julgue, porque você não sabe com que tentação seu próximo caiu. Não julge, porque você mesmo não suportou a sua tentação. Não julgue, porque você teve a sorte de nascer numa situação onde o seu egoísmo e decisões erradas te levam a pecados discretos e fáceis de ocultar, e não a assassinatos e destruição. Nos olhos de Quem define toda a realidade, estamos todos no mesmo patamar; não importa o quanto seus pecados sejam menores, qualquer um sozinho já reduz sua justiça, aos olhos do céu, a nada. E não é apontando para serial killers e pensando em quão melhores somos do que eles, o quão malignos eles são em comparação com nós cidadões honestos e comuns, que vai mudar isto.

7 comments:

Gabe said...

Perspectiva interessante, só gostaria que mais cristãos compartilhassem-na.

Aprendiz said...

Seja bem-vindo João. Que o Eterno lhe ajude sempre a dar aulas proveitosas.

Gostaria que você comentasse a aparente incongruência entre os textos bíblicos que mandam julgar e os que mandam não julgar. Vejo que os cristãos fazem uma confusão danada a respeito, e acho que é um bom (e útil) tema para discussão.

João Lemos dos Santos said...

Gabe, como qualquer outro ideal cristão, esse é impossível de praticar perfeitamente. Eu quase não consigo escrever um post sem decretar julgamente contra alguém, mas juro que é um impulso que tento resistir.

Aprendiz, acho que existe uma diferença entre julgar o valor ou caráter real de uma pessoa e julgar as idéias que ele advoga com suas palavras e (isto é importante) atos. Eu posso dizer que, digamos, algum político corrupto é ganancioso, ou que algum assassino é um homem cruel. O que eu não posso fazer é tomar isso como ponto de partida para estabelecer a minha bondade maravilhosa, ou tentar medir o valor humano dos outros. O que posso fazer é adverti-los de seus erros (nunca esquecendo que tenho também os meus) e apontá-los para Cristo. E posso também aprender com seus erros, e atentar para não repeti-los.

Note que enquanto julgamento de pessoas é prerrogativa de Deus, julgamento de idéias já fica livre pra gente. E existe uma diferença imensa entre dizer que todos tem valor igual perante a Deus e todos são pecadores em seus olhos, e dizer que toda idéia humana vale o mesmo, e a ´verdade´ de cada um vale mesmo que a de outro.

san said...

Mas no tal programa, que já assisti, não acredito que se esteja estabelecendo uma gradação de quem é melhor e quem é pior em relação aos considerados "bons" e, sim, quem é mais violento dentro do espectro da violência genérica, presente em todos nós. Assim: esse tipo pode matar e ir embora, já esse outro mata e sapateia em cima, enquanto aquele mata, sapateia e cospe, sei lá, dependendo de fatores químico-emocionais. Não? Desculpe, sou meio devagar.

Edecildo said...

O mais interessante, é que aos olhos dos religiosos, não sei como não consideream DEUS no nível 23, o nível máximo da maldade...
Sim, pois o capitão da embarcação não é SEMPRE o responsãvel?
É aquela velha questão: Ou Deus não faz porque não quer (então seria abominável), ou Deus não faz porque não pode (então seria incapaz ou simplesmente não existiria), he he he

PENSEM! PENSEM! LEIAM OUTROS LIVROS!!!

João Lemos dos Santos said...

Meu Deus, Edecildo, sua eloquente exposição da teodicéia me fez abandonar minha fé em Deus para sempre. Vou lá tatuar o rosto de Bertrand Russel na minha nádega esquerda e ler estes misteriosos "outros livros" do qual você fala.

Abraços,

João

Edecildo said...

Caro João Lemos... os "outros livros" só são misteriosos para quem não os lêem.
Não entendi a ironia. Por acaso é errado recomendar leitura?

ps: A pergunta que não quer calar - O QUE DIABOS VOCE TEM TATUADO NA NÁDEGA DIREITA, HEIN???? TODOS ESTÃO CURIOSÍSSIMOS... he he he