Entrando na sala, vejo minha irmãzinha assistindo um programa no Discovery Channel chamado "O Índice da Maldade". A premissa do programa parece ser que um psicólogo analiza os casos de vários serial killers, e pronúncia o nível de maldade de cada um dentro de uma escala pré-determinada. Por exemplo, assassinos são X pontos piores do que ladrões, e assassinos-estupradores são Y pontos piores do que meros assassinos, e assim por diante, até que toda uma galeria de assassinos em série esteja julgada e condenada de acordo com o patamar de maldade em que se encontram. Não gostei muito da idéia. E o motivo é o seguinte:
Uma das premissas básicas do cristianismo é que todo ser humano é desesperadamente corrupto e mau quando comparado ao Deus santíssimo, e ainda genuinamente mau mesmo apenas em comparação com outros seres humanos. Como escreveu Paulo, citando o salmista, "Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda, não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com a língua tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos."
O motivo pelo qual a mensagem do Cristianismo é (ou, aliás, deveria ser) uma de salvação pela graça divina por intermédio da fé, e não por mérito humano, é justamente por essa incapacidade de santidade inerente ao homem. Ao homem que diz que Deus o aceitará porque ele foi bondoso durante sua vida, o cristão pergunta: que bondade você possívelmente poderia possuir que satisfaria um Deus eternamente justo? O cristão é ordenado a depender da graça divina porque nada, absolutamente nada que ele pode fazer poderia começar a apagar as manchas em sua alma, a desonra feita a Deus, o veneno com o qual ele já infectou o mundo.
E é também por esse motivo que o cristão é proibido de julgar os outros. Como C.S. Lewis apontou, um homem pode estar numa posição onde sua ira causa a morte de milhares, outro numa posição onde sua ira faz apenas com que as pessoas riam dele: mas o mal que os devora por dentro pode ser exatamente o mesmo. Por isso a ordem é sempre a mesma: não julgue. Não julgue os outros, porque com a mesma medida com que julga, você também será julgado. Não julgue, porque você não sabe com que tentação seu próximo caiu. Não julge, porque você mesmo não suportou a sua tentação. Não julgue, porque você teve a sorte de nascer numa situação onde o seu egoísmo e decisões erradas te levam a pecados discretos e fáceis de ocultar, e não a assassinatos e destruição. Nos olhos de Quem define toda a realidade, estamos todos no mesmo patamar; não importa o quanto seus pecados sejam menores, qualquer um sozinho já reduz sua justiça, aos olhos do céu, a nada. E não é apontando para serial killers e pensando em quão melhores somos do que eles, o quão malignos eles são em comparação com nós cidadões honestos e comuns, que vai mudar isto.
Sunday, March 02, 2008
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4 comments:
Perspectiva interessante, só gostaria que mais cristãos compartilhassem-na.
Seja bem-vindo João. Que o Eterno lhe ajude sempre a dar aulas proveitosas.
Gostaria que você comentasse a aparente incongruência entre os textos bíblicos que mandam julgar e os que mandam não julgar. Vejo que os cristãos fazem uma confusão danada a respeito, e acho que é um bom (e útil) tema para discussão.
Gabe, como qualquer outro ideal cristão, esse é impossível de praticar perfeitamente. Eu quase não consigo escrever um post sem decretar julgamente contra alguém, mas juro que é um impulso que tento resistir.
Aprendiz, acho que existe uma diferença entre julgar o valor ou caráter real de uma pessoa e julgar as idéias que ele advoga com suas palavras e (isto é importante) atos. Eu posso dizer que, digamos, algum político corrupto é ganancioso, ou que algum assassino é um homem cruel. O que eu não posso fazer é tomar isso como ponto de partida para estabelecer a minha bondade maravilhosa, ou tentar medir o valor humano dos outros. O que posso fazer é adverti-los de seus erros (nunca esquecendo que tenho também os meus) e apontá-los para Cristo. E posso também aprender com seus erros, e atentar para não repeti-los.
Note que enquanto julgamento de pessoas é prerrogativa de Deus, julgamento de idéias já fica livre pra gente. E existe uma diferença imensa entre dizer que todos tem valor igual perante a Deus e todos são pecadores em seus olhos, e dizer que toda idéia humana vale o mesmo, e a ´verdade´ de cada um vale mesmo que a de outro.
Mas no tal programa, que já assisti, não acredito que se esteja estabelecendo uma gradação de quem é melhor e quem é pior em relação aos considerados "bons" e, sim, quem é mais violento dentro do espectro da violência genérica, presente em todos nós. Assim: esse tipo pode matar e ir embora, já esse outro mata e sapateia em cima, enquanto aquele mata, sapateia e cospe, sei lá, dependendo de fatores químico-emocionais. Não? Desculpe, sou meio devagar.
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