Friday, March 07, 2008

Um post chato e desnecessariamente comprido sobre um assunto sem importância

Não entendo o que leva as pessoas a dizerem, quando celebrando uma data, que "todo dia é dia de-". Percebi isto especialmente hoje, nas celebrações antecipadas do dia da mulher aqui na faculdade. Ouvi da boca de não menos seis pessoas, num intervalo de apenas quatro horas, que todo dia é dia da mulher. Se todo dia é o dia da mulher, porque comemorar no dia 8, então?

Comerciais dizendo que todo dia é dia dos namorados. Pastores dizendo do púlpito que a páscoa acontece verdadeiramente todos os dias, em nossos corações. Pessoas dizendo que o natal é pro ano inteiro. Meu Deus, pessoas, eu entendo o desejo de fazer com que todo dia seja especial, e entendo o desejo de fazer alguém se sentir especial todos os dias. Mas se podemos aposentar pelo menos um clichê, que tal nos livrarmos desse tique mental de dizer que todo dia é o feriado presente? Essa mania me lembra o chapeleiro maluco e a lebre de março, comemorando seus desaniversários 364 dias por ano.



Aqui: o que faz cada feriado ser especial é justamente o fato de que, entre todos os dias do ano que não comemoram um evento, ou pessoa, ou idéia, aquele dia o comemora. Se todo dia for dia da secretária, ou dia do motorista de ambulância, ou dia da mulher, que diferença isto faz? Se todo dia for dia do guarda de trânsito, não haverá mais dia do guarda de trânsito. O fato de que o dia especial só ocorre uma vez por ano é justamente o que o faz especial.

O mesmo com festas religiosas. O que faz do natal e da páscoa ocasiões sagradas é o fato de que embora sempre lembremos do nascimento e paixão de Nosso Senhor, nós as celebramos especificamente naquelas datas. Se o ritual se tornar rotina, ele perde sua aura mística, ele se torna entediante. Uma grande celebração perde sua legitimidade se ela ocorre todo dia. É impossível estar em celebração constante. Júbilo perpétuo é um estado biologicamente e psicologicamente inatingível. Quem comemora desaniversários o ano inteiro não tem fôlego pra comemorar aniversários de verdade.

E é por isso que acho bobagem dizer que o dia da mulher, ou o dia do domador de leões, ou o dia da banana chiquita, é todo dia.

2 comments:

Gabe said...

Ahhh, por minha vez detesto datas comemorativas, todas elas, embora algumas sejam consideravelmente mais irritantes do que outras, como o dia do "Tomador de Conta de Carro" (imagino que se não há, haverá.) Não imagino a necessidade de datas especiais, não consigo conceber alguém ficando satisfeito por estar no "seu dia", ou algo do tipo. Páscoa e Natal por sua vez tem seus significados religiosos, familiares e culturais, mas ainda assim são datas terríveis, quase fúnebres!

Nah, estou ficando velho e amargo!

João Lemos dos Santos said...

Aí está, essa de todo mundo ficar satisfeito ´por seu dia´ eu também acho besta; se não deposito muita importância em meu aniversário, não é um dia celebrando minha profissão que vai me deixar encabulado de alegria.

Eu gosto de Páscoa e Natal, mas não gosto muito da parafernália comercial ao redor deles, em especial no natal. Gosto de hinos religiosos, e acho bacaninha, digamos, nos primeiro quatro dias de dezembro, poder entrar numa locadora e ter músicas tocando sobre o menino Jesus e etc. Mas depois disso eu canso, e eu odeio (não por intolerância religiosa, mas apenas por meu lado de pessoa normal) músicas de natal que gloriam no lado cultural-comercial do natal- músicas sobre papai noel, e renas, e trenós, e presentes, e pudim de natal.

Mas além disso, gosto bastante do natal. A lembrança da data, o agradecimento, etc. Até naquelas pecinhas de natal horríveis, a re-encenação daquela ocasião sagrada tem um ar ritual que gosto bastante. E além do mais, há o resto do natal: família, comida, talvez um livro ou dois de presente, etc. O mesmo com a páscoa; e um dia ainda celebrarei a páscoa numa igreja grega ortodoxa pra poder dizer o "Christos anesti"; "Alithos anesti".